São Paulo ... 1999! Eram 37 os inscritos para os 1000km de Brasília. E lá estava eu a bordo de um Festo turbo - um protótipo nacional com 400 HP de potência. Eu estava bem tranqüilo, apesar de nunca ter andado na pista de Brasília e jamais ter sentado num carro como aquele. No dia anterior, meu colega de equipe - Rodrigo Piquet -, deu uma volta na pista comigo e o Nelsinho, me dando "dicas". No fundo eu estava ansioso....

Na noite anterior à prova eu havia pensado comigo mesmo: "Quem diria. Para quem competia de kart, passar logo para um carro TOP desses. Eu pensava se não estava sendo imprudente. Da noite para o dia estava num dos melhores carros para disputar os 1000km de Brasília ao lado de nomes como Nélson Piquet e Tom Stefani. Como sempre dormi bem e acordei 101% preparado".

O tempo estava ótimo, porém na pista as coisas não foram tão bem assim. O carro após uma checagem na pista apresentava problemas. Corriam comigo, além do Rodrigo, o Kau Machado (PR) e o Pantcho. Nossos patrocinadores eram Festo, Jornal de Brasília, Sucos Del Valle, Vallette e Bottero. O 1° treino foi abortado e os outros três foram divididos entre todos. Assim, fui para a prova "muito verde" - até o macacão e o capacete eram verdes....

Minha primeira sensação foi ótima. O carro fazia curva muito bem, mas não me impressionou muito a aceleração e velocidade final, apesar de ultrapassar a quase todos com extrema facilidade. Eu pensava: "É, estamos rápidos". No final do treino ao passar um Espron, eu rodei, mas nem fui para a caixa de brita. Segurei o carro no asfalto mesmo. Comecei devagar e fui virando em 2m20, 2m18s3, até chegar em 2m14. Todos acharam muito bom principalmente porque eu andei com menos pressão no turbo de modo que pudesse me adaptar melhor ao carro. O Rodrigo virou em 2'12"5d - ele conhecia muito bem a pista e carros deste tipo e o Kau virou no meu tempo. O Pantcho, com muita experiência naquele protótipo, turbo no máximo e pneus novos virou em 2m06s8, garantindo a 3ª posição no grid.

O carro era fácil de guiar, as reações bem mais lentas que o kart, o volante leve, o câmbio muito bom, mas a leitura daqueles instrumentos todos me confundia um pouco. O motor tinha bom torque - a curva 1 onde todos faziam de 3ª marcha, experimentei com o Rodrigo e passamos a usar a 4ª. Isso evitava que trocássemos de marcha na saída da curva (fazendo a mesma com uma mão só). O carro chegava a quase 8.000 giros e o combustível era metanol, o que me assustava um pouco, além daquele cheiro forte após o reabastecimento.

Eu estava feliz. A estrutura da equipe era ótima, tínhamos um ótimo pacote para a prova e largaríamos atrás do Nélson (BMW) e do Tom Stefani (AG Vectra). Atrás de nós tinha muita gente boa - em 4°, ao nosso lado, estava o Ruyter Pacheco e o Flávio Andrade (também de AG Vectra).

Na prova o que se viu foi o Pantcho - que largou - quebrando o câmbio com 10 minutos de corrida. Trocamos o câmbio e voltamos em 37°. Aí sim nossa prova começou de verdade. Andamos no limite a prova toda e ultrapassávamos um a um sem qualquer dificuldade e sem o carro apresentar nenhum problema - era maravilhoso.

Dois momentos me marcaram: no primeiro, ao descer a reta de chegada vi no meu vácuo o Nélson e pensei "xiiii... minha ansiedade dobrou". Mas o que vi foi ele atravessando a reta, a curva 1 e a reta oposta no meu vácuo. Eu nem enxergava o carro, só o capacete dele, parecia que ele estava no banco de trás. Ele saiu duas vezes do vácuo e não conseguiu a ultrapassagem. No final do retão fiz um sinal e ele se mandou. Tentei acompanhá-lo, o que não foi tão difícil assim. E foi a minha melhor volta da prova. Tive a sensação de estar sentado num ótimo carro e se eu tivesse treinado mais que os 60 minutos de experiência com ele nos treinos, eu seria bem mais rápido.

Nosso protótipo era tão rápido que outro grande problema que senti foi a aproximação nos carros turismo (Fiat, Voyage, Gol, Corsa, etc). Mais de 20 segundos por volta. Numa dessas quase estacionei o capacete no porta-malas de um Voyage...

No final, andamos muito bem, fomos rápidos e vencemos em nossa categoria. Subi ao podium e me sentia feliz. Os mecânicos vibraram e me lembro que até recebi um beijo de um deles. Foi uma experiência realmente válida e que espero um dia poder fazer novamente. Nesse ano quase fechamos novo pacote com o Pantcho, mas a falta de treinos e competições fizeram que meu juízo me proibisse isso.... aguardemos 2004... quem sabe eu não corra com meu amigo Marc Zimmermann... temos um projeto secreto....

Texto de Fernando Toscano publicado em 4 de abril de 2003



Fonte: Pit Stop

Os "1000 Km de Brasília" na visão do piloto

Fernando Toscano

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Fernando Toscano nos

boxes durante os "1000 Km de Brasília" de 1999.

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